quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Consumo nocivo de álcool no Brasil



Especialistas analisaram os dados do relatório sobre saúde e álcool da Organização Mundial de Saúde (OMS) para um público formado por profissionais de saúde, pesquisadores, gestores públicos e representantes da indústria de bebidas.

De acordo com o Dr. Arthur Guerra, coordenador do programa do Grupo Interdisciplinar de Álcool e Drogas (GREA), vinculado ao IPq-HCFMUSP, o seminário constitui um marco na mobilização do combate ao consumo nocivo do álcool. “É a primeira vez que reunimos os diversos setores ligados ao tema para avaliar em profundidade os dados da OMS divulgados em 2014, tendo em vista a meta para o Brasil de redução de 10% do consumo nocivo do álcool até 2025. Era essencial termos uma dimensão crítica do nosso desafio, compartilhada entre todos”.

O seminário, que teve como mestre de cerimônia o Dr. Jairo Bouer, contou com as análises de cinco especialistas: Dra. Camila Magalhães Silveira (FMUSP), Dr. Carlos Sojo (FLACSO); Dr. Gregor Burkhart, do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (EMCDDA); o economista Sérgio Almeida (FEA/ USP); e o jornalista Luiz Caversan.
Durante o evento foram abordados o histórico comparativo dos dados do Brasil e da América Latina em relatórios da OMS 2011 e 2014; a metodologia de coleta de dados utilizada, principais conceitos e indicadores para medir o consumo nocivo de álcool pela OMS e políticas públicas voltadas para a redução desse tipo de consumo.
Além disso, foram abordados o mecanismo de impacto do álcool na saúde pública e suas variáveis ligadas ao indivíduo, como gênero e idade; ao país, como cultura, status econômico e disponibilidade do álcool; e ao nível e padrão de consumo e qualidade da bebida, neste caso o álcool ilegal.

Destaque das apresentações: 
Abertura e apresentação dos dados da OMS
O Dr. Arthur Guerra abriu o seminário apresentando os dados do relatório da OMS sobre saúde e álcool (gráficos abaixo). Destacou o fato de o país ter melhorado seus indicadores referentes ao consumo de álcool.


Níveis e Padrões de Consumo
Consumo de álcool per capita (15+), litros de álcool puro

2003-2005
2008-2010
Mudanças
Registrado
6,8
7,2
è
Ilegal
3
1,5
î
Total
9,8
8,7
î*
Américas
9,2
8,4


* Redução do consumo per capita entre 2005 e 2010

Mortalidade e Morbidade
Prevalência de problemas relacionados ao uso de álcool e dependência alcoólica (%)

Problemas por uso de álcool**
Dependência de álcool
Homens (15+)
8,2
3,9
Mulheres (15+)
3,2
1,8
Ambos
5,6
2,8
Regiões das Américas – WHO
6,0
3,4










**Inclui dependência e uso nocivo do álcool

Visão Crítica da área da Saúde
Dra. Camila Magalhães Silveira (FMUSP) disse que são vários os aspectos que influenciam no consumo de álcool e que o consumo per capita é uma medida ruim, uma vez que não avalia quem bebe e como bebe. Abordou as principais diferenças de gênero no que tange ao consumo, apresentando dados sobre consumo nocivo de álcool entre homens e mulheres.
Segundo a Dra. Camilla, é preciso priorizar o combate ao consumo nocivo do álcool entre mulheres, jovens, pessoas com baixa escolaridade e população com maior privação social. Entre os jovens, além de investir na diminuição do beber pesado episódico, é preciso atuar para postergar a idade de início de consumo do álcool.

Dose padrão
12 g álcool puro:  350 ml cerveja ou 140 ml vinho ou 40 ml destilado

Beber moderado
Homem: até 2 doses/ dia
Mulher: até 1 dose/ dia

Beber de risco 
Homem: mais de 14 doses/ semana ou 4 doses/ dia
Mulher: mais de 7 doses/ semana ou 3 doses/ dia

Beber pesado episódico 
Homem: 5+doses/ocasião (em intervalo de 2 horas nos últimos 30 dias)
Mulher: 4+doses / ocasião (em intervalo de 2 horas nos últimos 30 dias)

Visão crítica da área da economia 
O economista e prof. da FEA-USP, Sérgio Almeida, tratou do consumo do ponto de vista da economia; De acordo com ele, medidas que elevam o custo da bebida mexem com o mercado, mas é preciso avaliar qual faixa de consumidores é impactada. Dessa forma, é essencial conhecer o seu efeito sobre as pessoas que fazem consumo nocivo do álcool. “Medidas para taxação podem ter efeito inócuo. Para que elas sejam eficientes, é preciso saber como as faixas de consumo funcionam”.
Além disso, o aumento dos preços pode ter efeito adverso, criando estímulo para o mercado informal, conhecido como Álcool Ilegal. Sobre isso, Almeida relembrou a Lei Seca nos EUA na década de 30, que teve como efeito colateral um aumento no número de mortes em decorrência do consumo de álcool de baixa qualidade.

Visão crítica da área da comunicação
Luiz Caversan analisou a cobertura, majoritariamente negativa, que a mídia dispensou ao lançamento do relatório da OMS. O dado que obteve maior destaque nas grandes revistas e jornais foi o consumo per capita de álcool no Brasil. O jornalista também comentou as mudanças dos últimos 20 anos no modo como é feito o jornalismo diário, em parte influenciada pela internet e mudança de perfil dos leitores. Caversan finalizou com uma provocação: “A academia precisa reagir, reconquistar o espaço de consultoria que já teve no jornalismo nacional. Isso instigará o debate e reflexão”.

Visão crítica do uso de álcool nos países da América Latina
O sociólogo costa-riquenho Carlos Soyo analisou a metodologia utilizada pela OMS para a construção de diversos trechos do estudo. As mudanças de alguns indicadores de edições anteriores do relatório para a atual e as discrepâncias regionais de medição de consumo dificultam a construção de modelos históricos do estudo, que poderiam ser utilizados para embasar propostas de políticas públicas mais eficazes. “Em diversos pontos é impossível contrastarmos com segurança os dados”, afirma. Soyo sugeriu quatro indicadores que resumem o consumo nocivo e que deveriam ser acompanhados com frequência definida e metodologia única entre os países. São eles:  consumo excessivo de longo prazo, consumo excessivo de curto prazo (Beber Pesado Episódico (HED), porcentagem da população que inicia o consumo regular antes dos 18 anos e acidentes fatais de trânsito com influência de álcool acima da concentração de álcool no sangue definida por lei.

Visão crítica da área da prevenção
Gregor Burkhart avaliou a forma como foram apresentadas no relatório as informações sobre as políticas públicas e intervenções em cada país. Na sua avaliação, os itens apresentados pela OMS como principais sinais de comprometimento como sendo insuficientes, ou seja, ter política nacional do álcool e apoiar ações comunitárias só funcionariam caso sejam feitas ações de implementação e fiscalização. Da mesma forma, medir a presença de tais sinais com “Sim/Não” representa uma perda do poder comparativo e uma tendência para respostas positivas. Enfatizou a necessidade de medidas que mudem o contexto (medidas ambientais) em que o indivíduo está inserido para gerar mudanças no consumo nocivo de álcool. 

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